O IMAGINÁRIO MUNDO DO ZÉ

Era uma vez um mundo de sonhos num lugar distante. Ele ficava um pouco longe da Terra e muito mais próximo das nuvens. Para se chegar lá a tarefa não era fácil, mas também nada impossível. Apenas seria necessário subir os degraus que separavam o mundo daqui do mundo de lá.

Conheci um senhor aparentando certa idade e uma sabedoria que me deixou desajeitado. Imaginei que o tempo e o número de batalhas que ele viveu, cada vez que descia para o mundo de cá, o tivessem deixado assim. Recém chegado, perguntei para onde me levaria o caminho que estava à minha frente? 

− Preocupe-se apenas em como você fará esse caminho − respondeu-me firmemente.

No mundo de cá, não adianta querer prever o final porque ele é tão incerto quanto os desejos mais íntimos do nosso coração. A cada instante, toda vez que alguém toma uma decisão, seja a nossa ou a do outro, o futuro se modifica. Mas no mundo do lado de lá tudo é lisérgico, é diferente.

Não perguntei a ninguém se eu poderia ficar ali, se poderia pertencer àquele lugar, embora aquele fosse o mundo que eu imaginava exatamente como ele era. Mais tarde fui entender que ali só entravam os sujeitos de bom coração. Então meu acesso estava garantido, pensei.

Logo depois das primeiras montanhas havia um jovem de estatura média, corpo franzino, e nos olhos uma cor verde brilhante que me fitavam fixamente enquanto falávamos. Ele tinha a calma de um discípulo, parecendo um aprendiz das coisas da vida. E aos poucos me descreveu como era viver num mundo sem ter nada para esperar.

− Aqui você não experimenta a solidão, não espera por coisas que não virão, não chora de saudade, não tem medo da vida. Aqui, por volta das cinco e meia da tarde o sol que baixa atrás da montanha faz com que os últimos raios deixem as nuvens com um tom rosado observe. E realmente entre o fofo branco e o tom róseo da nuvem o meu olhar se perdeu.

Quando caminho pelas avenidas lotadas da minha cidade, e observo cada rosto que passa por mim, fico pensando nas inúmeras vidas e histórias que se vão. Imagino os sonhos, as aflições, as angústias, a fome, o abandono, o frio, e os desejos que cada pessoa carrega consigo − nunca entendi porque sempre destaquei a tristeza às alegrias − e fico esperando por um olhar, que não vem.

Perguntei para alguns amigos − do mundo daqui − sobre quais eram os seus sonhos e pedi que me dissessem os três primeiros que lhe viessem ao pensamento. Todos sabiam que o primeiro dessa lista seria o mais respeitável e implicaria na escolha do segundo, do terceiro, e assim por diante. Se ganhar na loteria fosse o mais importante, logo você teria a ilusão de que todos os outros viriam facilmente. Engano.

A minha breve pesquisa apontou que quanto mais jovem, mais chance dos sonhos transitarem o campo do que é material. A grande maioria desejou carros, desejou casas; outros tantos desejaram mulheres, amantes. Já os de meia idade desejaram o encontro profissional, desejaram um amor, desejaram uma família, um lar. Os mais velhos, no entanto, ficariam felizes se ainda tivessem saudáveis, se tivessem amigos, se tivessem aposentaria e paz.

Pedi ao jovem rapaz que me dissesse se ele ainda estaria ali quando eu voltasse. Ele respondeu que sim, mas que provavelmente já não estaria tão jovem. Disse ainda, que se eu realmente voltasse, precisaria reconhecê-lo pelo olhar. Curioso, queria saber por quê? 

− Você, como a grande maioria dos homens, que vive no mundo de lá, ainda não aprendeu a esperar e muito menos a aceitar as imposições da vida. Mas eu aprendi − sentenciou.

Nunca aceitei que o comodismo se instalasse em mim, embora precise admitir que é esse o meu estado de espírito. Só posso lamentar. Daí prefiro que o inconformismo seja uma propulsão para que eu me movimente em função da minha própria evolução. Entretanto, concluí que, nessa altura da vida, já tenho capacidade consciente e suficiente para juntar tudo aquilo que pretendo aprender sempre que visitar aquele lugar distante.

­− Posso lhe fazer uma última pergunta? − indaguei ao jovem rapaz.

− Foi você quem autorizou a minha entrada neste mundo? − respondeu-me que não, que fora o guardião.

Antes de descer e partir encontrei novamente o bom velho que me perguntou se eu havia gostado dali. Respondi que sim e que voltaria todos os dias da minha vida. Ouvi dele que se no dia seguinte eu não o encontrasse eu o reconheceria no jovem rapaz, e acrescentou: 

− É ele quem perpetuará a minha sabedoria e reconhecerá o teu coração.

Zé.

That’s all Folks!

Imagem: Getty Images

7 Comments

  • Viviane wrote:

    Que texto interessante.
    Será que meu inconformismo também se trata de evolução?
    Quem sabe um dia, nós, pessoas de bom coração, também possamos subir estes degraus.
    E viver em um mundo melhor.
    Será que vou identificar meu guardião, será que vamos nos reconhecer?

  • Queria poder reconhecer cada decisão que eu tomo… em qual futuro me levará??? Não sabemos né… nem saberemos… as escolhas são sempre nossas. Por isso… o livre-arbítrio.
    De ter bom coração tô bem tranquila… mas se meus pés e minha força estarão prontos a subir esta escada da evolução… isto eu já não sei. Deixarei por conta do meu guardião!!!
    Mas uma coisa é certa pra mim… tô sempre em busca de respostas… como se eu quisesse viver primeiro o futuro e voltar pra cá… pro presente. E com relação à isso fica somente sendo 1 dos meus desejos… os outros que eu tenho vc já sabe de montão!!!!
    Te love forever… que belas palavras… como sempre!!!!
    “Inté”

  • Li e gostei. Abraços. Ary.

  • Zé,
    Muitas vezes o nosso mundo imaginário é muito mais verdadeiro do que o mundo real. Ele pode estar cheio de vida, de amores, de figuras que nós mesmos criamos e nossos sentimentos para com eles podem ser intensos. Talvez seja por isso que não conseguimos abandonar esse mundo imaginário, perfeito. No mundo real tudo pode ser contraditório e imperfeito. O mundo daqui também pode ser tão ilusório quando o de lá. Digamos que a vida seja composta por alguém que procuramos e que nunca encontramos… pura imaginação.

  • Nossa! Que texto lindo!!!!!!
    Delícia voltar a te ler!
    Preciso ler novamente para tecer algum tipo de comentário à respeito. Por enquanto fica os meus mais sincero parabéns (!)
    Beijos de saudade!

  • corrigindo: sinceros*

  • Teresa wrote:

    A grande sabedoria do homem consiste no entendimento e na aceitação de quem ele realmente é. Para ser um bom discípulo é necessário que o homem esteja disposto à arte de aprender. E no momento em que ele souber distinguir entre o real do imaginário, ele estará pronto para ocupar a posição de Mestre.