O EMBALO DA VIDA

A chuva gelada que cai no telhado de barro produz um som constante que embala o sono de toda a gente. Na grama o sapo coaxa e as cigarras que inundavam o verão já se foram. Cada qual, debaixo de dois ou três cobertores enrosca um pé no outro ou no pé do outro, para se esquentar e dormir.

 É tarde, e hora que outra se ouve os passos dos sujeitos de guarda-chuvas. Eles passam bem próximos à janela que dá para a calçada da casa. Vejo-os ao espiar pelas frestas largas da madeira. E se os cães daqui ladrarem, vários outros farão o mesmo no visinho, e no outro visinho, e assim o latido ecoará pelo bairro inteiro.

 Seguiram noites geladas do inverno do Sul. Nessas noites as estrelas parecem se multiplicar na escuridão límpida do céu, e brilham.

 − Tu estás vendo a quantidade de estrelas que invadiram o espaço? − perguntou-me ele.

− Claro que estou − respondi.

− Tu consegues ver as Três Marias?

− Sim, as vejo, ficam bem ali. E você vê o Cruzeiro do Sul?

− Sim, mas é melhor se tu não apontares.

− Não vá me dizer que dá verruga na ponta do dedo! − rimos juntos.

− Você sabe distinguir entre uma estrela e um planeta?

− Suponho que os planetas sejam os pontos mais brilhantes e os que parecem maiores − deduzi.

− O que será que existe além das estrelas, dos planetas, da imensidão?

− Você viu a pequena bola de fogo que caiu? Era uma estrela cadente.

Fechamos os olhos por um breve instante e cada qual fez um pedido.

− Vamos entrar? − perguntei ao meu pai.

− Vamos. Está muito frio aqui fora.

 No dia seguinte uma nevoa densa tomou conta de léguas adiante. Essa névoa costuma insistir até o meio-dia, mas por enquanto encobre toda a visão à frente. Várias pessoas caminhavam pelo passeio delimitado entre os troncos grossos das árvores centenárias que rodeiam todo o bairro. Quase somem por entre a neblina que pronuncia um belo dia de sol.

 Às seis da manhã, religiosamente, ouvem-se os sinos tocar. São vários deles espalhados pelo pequeno vilarejo, dada à proximidade das ingrejas. Nem precisa o galo cantar ou o despertador tocar.

 O fogão de lenha parece coisa de antigamente, do interior distante da metrópole, ou coisa de avó. E o cheiro da lenha invade a casa e aquece os seus habitantes. Madeira molhada tem cheiro bom, mas enche a cozinha de fumaça até que a brasa apareça. Logo cedinho, a casa inteira cheira a café coado com água de chaleira fervente.

 Sentei-me com a minha velha mãe, para ouvi-la.

 − Bebê de carrinho que tu eras, eu não sabia o que fazer para não ouvir teus resmungos. O frio da noite fazia doer pés e mãos.

− Fui um bebê chorão, fui?

− Amarrei uma ponta do cordão no meu pé, e outra no carrinho, para embalar teu sono.

− Verdade? duvidei.

− Se eu parasse, ouvia o teu choro e só me restava embalar.

 Fui olhar as gotículas que se formavam e que quase congelavam quando pingavam das folhas. Na grama se estendia um tapete branco como o gelo. No pouco chão batido que restava, vários formigueiros se formavam por todo o canto. Achei estranho que as roseiras já tivessem botões. Imagino que permanecerão assim − guardados − esperando os dias mais quentes da próxima estação.

 − Vamos entrar, meu filho? Está muito frio aqui.

Zé.

That’s all Folks!

Imagem: Getty Images

10 Comments

  • Viviane wrote:

    Que delícia esse texto.
    Que maravilha fazer parte desse mundo.
    Como comentamos essa semana, tantas pessoas tem muito mais, mas será que elas tem essas estrelas, essa chuva, esse soar do sino?
    Obrigado por fazer parte desse mundão ao meu lado.
    Amo você!

  • Jacqueline Gimenez wrote:

    Vou lê-lo para sempre… e quando tiver 96 anos, talvez com a visão cansada, estaremos tomando café ou vinho, uma vez por semana, para que me conte as suas aflições literárias. Te adoro. Beijos e paz.

  • Teresa wrote:

    Para transformar sentimentos em palavras é preciso muito talento, e você tem. Também é preciso muita sensibiliade, para sentir a vida, e você tem. Para que sejamos completos é preciso que nos encontremos, é preciso que nos conheçamos. Acompanho teus passos e me alegro pelos teus caminhos. É nos detalhes da vida que somos mais felizes.

  • Zé, estes encontros são sempre muito especiais. Com eles crescemos e percebemos o sentido mais profundo de existir. Descobrimos o tesouro da própria espiritualidade e percebemos o que realmente é importante… com eles escolhemos as estrelas que vão brilhar no nosso céu. O teu texto é como uma lágrima, que evapora e ganha os ares, que umidece a brisa e purifica o vento, que enche as nuvens e vira tempestade… e traz de volta a esperança, não deixando congelar os nossos corações.

  • Heloísa wrote:

    É assim, como estar vivendo a história tamanho o jeito de realidade que você empreende no discurso do texto. Ai que vontade de viver desse jeito. Em parte, me remete à minha infância. Tudo de bom, né? Você, ainda, quer voltar para o mundo do aperta aqui e ali?

  • Su Einsfeld wrote:

    Que máximo Zé! Quase pude sentir o frio! A imagem de um dia frio que nunca vi, ficou na minha cabeça. Um gramado cheio de neve.
    Mas como essas formigas resistem ao frio? Pensava que elas mal saíssem num tempo assim.
    Poxa, meus pais tinham um sítio com um fogão a lenha, aqui em Itaboraí, era muito legal.
    Quanto aos planetas: são os pontos de luz coloridos que não piscam (se olhar com atenção verá que as estrelas piscam). É interessante notar que há uma variação de cores de acordo com a idade da estrela e que, como diz um filme, olhar para o céu estrelado é como ver uma reprise.
    Bjs! Su.

  • Dely Rodrigues wrote:

    Owm… so sweet!

  • Oi amigo! Passando aqui para prestigiar tuas reflexões. Quando olhamos para o universo, para o céu estrelado… nos sentimos “pequenos” e inúmeras perguntas sinalizam nossa cuidadosa atenção. O que nos torna “grandes” é a certeza que de que não estamos sozinhos e que não somos “partes” desnecessárias. Cada um de nós, da mesma forma como as estrelas, somos e fazemos parte da imensidão que é o nosso universo. Pequenos e Grandes!
    Um abraço em ti, pequeno e grande Joseph.

  • Que história deliciosa! Acompanhei tudo tão de perto que juro ter sentido o cheiro da madeira molhada!

  • Jaque wrote:

    Boa tarde, meu lindo! O que dizer do teu texto? Uma delícia! Principalmente porque nesse momento que o leio, o telhado reproduz o som daquela chuva pesada de inverno, naqueles dias nublados que te pedem um cobertor, um chocolate quente nas mãos e um bom filme. Nossa aqui tem coisas muito gostosas mesmo, né? Só fica faltando a companhia de um amigo tão especial pra completar essa tarde tão preguiçosa. Um bjão fica com Deus e muita inspiração pra você.

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