O HOMEM QUE COPIAVA

Era uma fila imensa à minha frente, para ser atendida. Acho que fiquei ali esperando por quase uma hora. A senhora que chegou um pouco antes de mim, acompanhada do seu marido − suponho −, rezingava em voz alta as mazelas da vida. Eu não tenho coragem de atender um telefonema em público, o que dirá contar as minhas particularidades. E minhas costas começaram a doer, coitada da minha coluna que já estava toda comprimida, e reclamava.

Sempre tive o corpo meio dolorido. Se não dói aqui, dói ali. Quando jovem me lembro que sofria de fortes dores nas costas, não entendia se vinha da coluna ou dos rins. Minha mãe dizia que era friagem e o que sei é que realmente doía nos dias de muito frio. Atualmente, fortifiquei os músculos  da lombar com alguns exercícios e sempre me sento numa posição de dar inveja a qualquer fisioterapeuta. Mas meus ombros, meus joelhos, meus pulsos, facilmente sentem o cansaço e em boa parte do dia sinto-me fadigado. Minha alma e meu coração também deram de doer de uns tempos para cá.

Enquanto esperava ser chamado para o atendimento eu observava um senhor franzino, magrinho que era só osso, com um óculos de lentes “fundo de garrafa”, cravado no nariz e nas orelhas. Constantemente passava, dentro de um uniforme azul marinho, com uma pasta debaixo do braço. Logo deduzi que ele trabalhava ali. Era engraçado vê-lo mancar de uma perna e a sua agilidade me chamava à atenção. Seus cabelos brancos e a pele bastante irrugada revelavam uns 80 anos de idade, aproximadamente. Não demorou e o tal senhor foi até a copiadora com uma pilha de papeis.

Copiadora não é um objeto de difícil manuseio. Basta colocar a folha de cabeça para baixo e apertar o botão iniciar. Mas, lembrei-me que meu pai até hoje não quis usar o cartão do banco porque não sabe lidar com as máquinas de autoatendimento. Copiadora parece mais fácil e em alguns minutos, ainda no meio daquela fila, vi o velho tirar várias cópias com a presteza de um rapaz de 16 anos.

As pessoas que estavam na minha frente resmungavam o tempo todo pela longa espera. Serviços, num geral, aqui na nossa cidade, são péssimos. Não sabia se reclamar da fila, adiantaria. Resolvi ficar calado e não olhei para quem me pedisse cumplicidade. Mas, de tudo o que ouvia o que mais chamou à minha atenção foram as falas do simpático velhinho.

− Tudo bem com o senhor? − perguntou uma funcionária que chegava para usar a copiadora.

− Tudo ótimo, minha filha.

− Como foi a sua viagem? Quero saber dos detalhes.

− Foi ótima. Não é todo dia que vamos à Inglaterra e o meu inglês já não anda lá essas coisas − respondeu sorridente o velho senhor.

− Deu trabalho, mas aproveitei como se fosse a minha primeira viagem.

Ouvi quase todo o diálogo e fiquei impressionado com aquela pessoa que aos 80 anos ficou mais de 12 horas sentado na classe econômica de um avião para chegar ao Heathrow, o aeroporto internacional de Londres. Já em solo o sujeito também contou que ainda viajou algumas horas de taxi, para alcançar a cidade de destino, nos arredores da capital inglesa.

Acho que me surpreendi com aquele homem desde o primeiro momento em que coloquei os olhos nele. Não sei se a energia vinha do retorno das férias ou se era da natureza dele. Enquanto contava com brevidade as suas histórias eu me lembrava das minhas. Enquanto ele chegava ao fim da pilha de cópias, para dar lugar à colega que aguardava a vez, a fila rapidamente andou e fui atendido.

Se eu pudesse ficaria ali, ouvindo aquelas histórias e aquelas lembranças. Depois me lembrei que precisaria de uma cadeira e não tinha onde sentar.

Saí um pouco chateado daquele lugar. Saí pensando naquele homem. Saí de lá comparando-o a mim mesmo. Não é a primeira vez que me sinto meio “velho”, meio resmungão. Decidi que não vale a pena reclamar do tamanho da fila se nela eu precisar esperar. Também não pedirei a ninguém para que guarde o meu lugar. Fiquei imaginando que se aquele senhorzinho tivesse pressa que a fila andasse, que a copiadora copiasse, que a sua história da Inglaterra acabasse, se aproximaria mais rapidamente do fim. Ele já viveu 80 anos e se não tiver pressa, e ainda tiver a mesma disposição para o trabalho, talvez fique por muitos anos exercendo aquela função. Vai saber!

Você já deve ter ouvido por aí que os velhos voltam a ser crianças e muitas vezes agem como se fossem crianças. Eu tenho o grande prazer de conviver com pessoas mais velhas e confesso: é indizível o que sinto. De qualquer forma, para textualizar eu declaro que sou um eterno apaixonado por elas. Chamam à minha atenção e fica muito fácil compreendê-las quando dou ouvidos. Elas são mais carentes do que a carência afetiva que os mais jovens sentem. Elas são a soma do tanto de histórias que eles mesmos nos contam.

Decidi que se o meu corpo doer, vou ordenar para que meus pensamentos esqueçam a dor. E assim vou levando os meus dias, um após o outro, focado nos meus objetivos, focado no trabalho. Não terei pressa, mas terei a sabedoria, a disposição, e um sorriso estampado no rosto, exatamente igual aquele homem que copiava. E seguirei assim, até o fim.

Zé.

That´s all Folks!

Imagem: Getty Images

10 Comments

  • Oi Zé, lendo o seu texto eu lembrei do meu avó. Reflexo no qual eu me espelho. Lembro do rosto cujo sorriso me tocava, e que de mim tirava toda a tristeza. Seu sorriso era pacífico, belo, amoroso e deixava transpassar tudo o que aquele homem havia sido em vida. Ele tinha uma disposição invejável, e no auge dos seus quase 90 anos ainda tinha esperança, e buscava sua felicidade. Lembro uma vez que eu estava muito triste, e ele com toda sua sabedoria e amor de avô, apenas olhou nos meus olhos e me disse: Não fica triste não meu neto, olha para mim e deixa que a minha felicidade contamine o seu coração.
    Penso que o meu avó sempre acreditou na vida, na sua felicidade, no amor e por isso ele se tornou um velhinho disposto, com a alma jovem, um velhinho feliz.
    Que possamos nos cuidar para sermos velhinhos bonitinhos e bem-humorados. Beijos.

  • Pena que não conheci o teu avô. Imagino que ele tenha sido um velhinho muito simpático. Pouco conheci os meus, também. Lembro-me mais do meu avô paterno e muito pouco do pai da minha mãe. O vô Hugo era pedreiro e fumava palheiro. A imagem que tenho é dele pendurado num andaime, segurando um pá e fumando. Que saudades senti. Tomara, guri, que possamos chegar lá no finalzinho e recordar com alegria a vida, e querer viver como se fôssemos garotões.
    Zé.

  • Me identifiquei totalmente com o seu texto, meu amigo. Pude viajar deliciosamente nas suas palavras, tanto que se eu encontrasse com esse velhinho na rua poderia me dizer capaz de reconhecê-lo, como tantos que graças à Deus existem.
    Sempre fui uma adoradora dos mais velhos, mais vividos. Minha vó faleceu em maio e até a hora de sua passagem ela continuou me ensinando sobre a vida. Ela ficou internada em uma enfermaria de um hospital e tive o privilégio de passar uma noite lá com ela e mais 4 velhinhas lindas. Que delícia! Que lição de vida que minha vó me deixou aos 45 do segundo tempo dos seus 92 anos de vida.
    Linda história a sua!

  • Antes de tudo fiquei feliz pela tua visita ao Blog. Tenho escrito pouco por estar concentrando energias em outros textos. Já tenho quatro peças de teatro saídas do forno. Qualquer dia quero que você leia. Ah… vou visitá-la no teatro, soube que você está em cartaz. Seja sempre feliz, pra quando chegares lá na velhice ter muita alegria pra recordar. Muitos bjos.
    Zé.

  • Teresa wrote:

    “Aproveitei como se fosse a minha primeira viagem”, disse o senhor que poderia tê-la aproveitado como se fosse a última, dada sua idade. Mas preferiu dizer que aquilo que desejava poderia ser novidade; poderia ser vivido como se fosse a primeira vez; poderia ser bom.
    Que bela observação a sua. Em vez de reclamar da fila, prestou atenção no mundo.
    Bjos. Teresa.

  • Gostaria de saber onde fica aquele botãozinho que liga o “bem estar” e desliga o mal humor. Manteria o meu melhor estado, sempre ligado. Acho que só assim perceberia as cosias boas da vida e tudo àquilo que causa incômodo em mim, passaria despercebido.
    Zé.

  • Você sabe que não tenho muita paciência com pessoas de mais idade, exatamente pelo que você falou: a carência deles. Mas neste texto pude ver com seus olhos, tamanho valor que essas pessoas têm na vida da gente. Quem sabe seja por isso que eu não tenha aprendido mais, pela falta de convivência com eles, afinal não tivemos avós presentes.
    Parabéns. Que texto lindo! Ainda tenho muito a aprender com você.

  • Concluí que os observadores e atentos ao homem apredem mais. Não sei se apreendem ou armazenam essa sabedoria, mas alguma sensibilidade há de ser tocada, e com sorte aplicada.
    Zé.

  • São impressionantes as surpresas que os dias nos reservam, até mesmo nas filas!
    Bjs! Su.

  • A vida se torna mais colorida e feliz para os observadores.
    Zé.

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