Fazia tempo que eu não andava de pés descalços pela casa. O piso daqui é uma cerâmica na cor gelo, atualmente encardida, que quando o pé toca dá para sentir a temperatura mais baixa retida na pedra. A minha ex-mulher sempre implicava com a pele fina do meu pé. Uma vez por semana eu a ouvia reclamando da casca grossa do seu pé, formada pelo uso contínuo do salto alto. Mulher perde horas fazendo unhas, lixando os pés, pinçando pêlos, ajeitando os cabelos. Nessa hora é ótimo ser homem e ter pés de homem de pele macia. Acho que era isso que a incomodava.
Nunca senti tanto calor na minha vida. Aqui no Rio e no resto do país tem feito um calor tão insuportável que faz a gente quase derreter. Parece que abriram as portas do inferno. O Rio 40 graus da Fernandinha ficou algumas décadas para trás. Os termômetros aqui têm marcado máximas de 41, com picos de 43 ao sol, e sensação térmica de 50. Imagina?
Se eu pisasse no asfalto com o meu pé quase albino acho que fritava.
Nasci branco-de-neve de verdade. Para fazer as pazes com o sol, ou aceitar um convite para cair na água, só depois de mergulhar no filtro solar de FPS 60. E quem diz que eu tenho paciência para me besuntar no protetor? Mas, surpreendentemente tenho batido ponto na orla do Rio. A praia aqui é mágica. Apareço exatamente na hora em que a vovó Mafalda anunciava o término do Bozo, às 5 e 60. Lembra?
Ainda não tenho aquela simpática espreguiçadeira para lagartear no sol. Geralmente alugo uma delas, mas tem pesado no bolso. Meu grande achado foi uma bolsa térmica que leva várias Itaipavas geladas com as barras de gelo que o meu congelador produz. Nunca as deixo faltar. Para completar levo à tira colo alguns paramentos: copo, canga, filtro e não pode faltar as castanhas de caju. Cada maluco com as suas manias. Nem por isso me acho farofeiro, sempre recolho as minhas latinhas. Como dizem, praia é o programa mais democrático do mundo. Tem todo o tipo de gente por lá e todo mundo se entende.
Sempre me senti bem nos dias nublados e de chuva. Coisas da minha alma. Nunca entendi o que vim fazer no Rio, deveria estar em Londres. Vai ver que é por isso que passo horas em casa, acompanhado de mim mesmo, das minhas músicas, das minhas leituras, dos meus textos, dos meus pensamentos. Deve ser por isso que meus pés continuam muito branco. Vai saber.
Acho um grande barato que na praia de Ipanema e do Arpoador as pessoas aplaudam o pôr-do-sol. Realmente esse momento é um espetáculo à parte. Lá em Santos se baterem palmas é porque uma criança se perdeu. Já no meu bairro, se baterem palmas, provavelmente é um arrastão. Tô sempre ligado. Outro dia teve um desses aqui na Barra da Tijuca.
Escolhi viver num andar bem alto de um prédio simpático com uma vista panorâmica do mar. É lindo, apesar de não ter vista eterna. Mas o quê é definitivo em nossa vida? Em breve devem construir um condomínio bem na frente do meu. Por ora, a cada finalzinho de dia, fico admirando as nuvens que ao entardecer ficam meio rosas, e da minha varandinha eu aplaudo.
Hoje resolvi andar pela casa de coração leve, de pés desnudados, para sentir esse verão quente que invade até a alma da gente.
Zé.
That’s all Folks!
Imagem: Getty Images

Cara,
Muito tri esse teu texto. Há tempos que eu não ria por causa dos pés… hehehe. Muito tri e a sua ex… vou te contar, né? Bem coisa de mulher perua! hahahaha. Abraços.
Tá faltando a companhia desta tua amiga aqui que já adora um Sol né. Fico igualzinha à frango de padaria… viro de frente, de costas e de lado, pra ver se não sobra nenhum pedacinho que entregue a minha cor tão branca de ser… hehehe!!! Me amarrei no texto e desde já me convido pra este fim de tarde na praia, regado às “geladinhas”.
Muitos beijinhos.
Joe,
O verão chegou e só falamos do calor… e que calor. O Rio é carnaval, gente bonita, praia. E pegar uma praia no fim de tarde “5:60″ (que saudades da vovó Mafalda) e assistir ao pôr-do-sol, é um privilégio… ainda mais quando a companhia é boa e a cerva geladinha.
Quanto ao arrastão, eu tenho uma técnica: em vez de correr para o calçadão a dica é ir para o mar, onde ninguém vai… eu acho… só ter cuidado para não tomar um caldo.
E o calor continua.
Adorei o texto. Bjos guri.
Que beleza.
E eu aqui, trancado o dia inteiro em casa, janelas e vidros fechados, para não deixar o calor entrar.
Me aguarde! Bjus.
Hoje não é mais Rio de Janeiro e sim Rio Grande do Sul 40º! Está mesmo um absurdo estas temperaturas. Será que o fim se aproxima? Estamos com uma onda de virose aqui, as pessoas tem mal estar e ficam fracas tamanha desidratação. Feliz de quem tem varandinhas, pode ser ‘campinhos’ também (hehe). Vale tudo por uma brisa refrescante e para estar com quem amamos de verdade.
Gostei de todo texto. Mas, como temos nossas particularidades, a parte que me chamou atenção é a pergunta o que realmente é etermo em nossa vida.
Amizades não são eternas…
sonhos não são eternos…
o amor, talvez, seja a única coisa eterna.
Até mesmo nesse calorão… percebo que o amor pelo universo, unicamente, é capaz de freiar a humanidade que colide com a própria falta de cuidado… tenho sonhos estranhos, fantasiosos diria, com muitas partes do globo sendo extintas lentamente… acordo assustado e não quero nem pensar nisso…
Muito profundo seu texto, um assunto do seu dia e de atenção para com nosso universo!