RELAÇÕES DE ALUGUEL

Hoje parei para pensar no que de fato me pertence e concluí que só somos proprietários daquilo que está devidamente registrado e lavrado em cartório, em nossos nomes, com algum tipo de reconhecimento jurídico e de direito. Concluí também que metade do julgamos ser nosso, definitivamente, não é.

Em economia, propriedade é o direito que uma pessoa tem sobre determinado bem. Tem propriedade que é intelectual, tem propriedade que é privada e outras que são públicas. Tem também propriedades da física, da química, da mecânica e outras várias formas do que é próprio de algo.

No entanto, gostaria de falar de uma propriedade em especial: daquilo que chamamos de meu, daquilo que você julga ser seu.

Há algum tempo me tornei proprietário de três belos terrenos. Dois deles localizados na cidade e um no interior do estado do Rio Grande do Sul, de frente para uma lagoa imensa. Ok, uma beleza. Mas, sabe o que penso? Penso que eles foram apenas emprestados pela vida e que realmente não me pertencem. Mas tenho o direito de uso por algum tempo.

Por ora, todos precisam saber que os tais terrenos são de minha propriedade. Ninguém tem o direito, nem mesmo ao acesso, sem permissão, àqueles terrenos. Ninguém tem o direito àquilo que é do outro, do contrário é invasão. Na melhor das hipóteses é falta de respeito e na pior é roubo, é uso indevido.

Penso que de todos os bens que adquiri, os únicos que parecem meus são as terras adquiridas. Nem implosão tira elas de lá, ou do meu poder. Meu sofá, por exemplo, pegou um fungo e tá se rasgando por inteiro. Minhas roupas, de tão velhas, me fazem parecer um mendigo. O que comi mando embora no tempo da digestão.

Todo mundo já ouviu falar que o que é da terra, para ela precisa voltar. Ao homem somente é emprestado, mas sempre chega o dia da devolução. E a Terra foi sempre generosa, mas não perdoa à devolução.

Preciso citar ainda as propriedades de aluguel. Elas existem em várias categorias: apartamentos, carros, celulares, notebooks, escritórios, salões de festas, garagens, vestidos de noiva, mansões, iates, e etc. Ainda podemos alugar SPAs, massagens, acompanhantes, namoradas, sexo, e por fim amigos. Sim, eu disse amigos!

A vantagem do aluguel de amigo é que a moeda de troca é variável. Você pode pagar em espécie, trocar por favores, por serviços, por chantagens ou vantagens. Mas, ainda é possível trocar por carinho, por afeto e fazer valer a sinceridade daquilo que você tem para oferecer. Se o outro aceitar, com certeza, a moeda de troca será a mesma. Assim, pelo menos empata.

Um alerta: não somos proprietários de esposas, maridos, namoradas e nem mesmo dos filhos. Por pessoas não podemos oferecer seguros, nem garantias. Seguro de vida não conta porque precisa morrer alguém.

Você já pensou no de fato lhe pertence? Quanto você pagou pelo o que tem e quanto vale? Quanto tempo dura e se o objeto tem validade? O imposto não o consome com o tempo? Precisa restaurar ou fazer manutenção?

Você já pensou quanto cobra do outro o aluguel pelo seu uso? Você se deu conta de que de tudo o que você tem, a única coisa que permanecerá, além da sua contribuição intelectual, serão as terras que possui?

Zé.

That’s all folks!

Imagem: Getty Images

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