O MUNDO REAL DAS CONTAS A PAGAR

Já é março e as águas desse mês estão fechando o verão. Assim cantava Elis, que também dizia que havia promessa de vida no seu coração. Realmente lá fora a chuva refresca as últimas noites quentes do período, e muita coisa se fecha. Fecha-se o ciclo da estação. É o fim de um caminho. É o resto de tudo e de tudo o que ficará sozinho.

Pena que quando passo a régua nunca resta nada e sempre falta o principal – money. Mas não dá para pensar que é esse o fim de tudo. Muito pelo contrário, todo mundo tem um projeto guardado na gaveta e se você não tem é hora de montar o seu.

Sempre confiei na vida, na providência divina, e naquilo que está guardado para a gente. Acredito em mim, na minha generosidade, e na generosidade alheia. Este último quesito é muito sério e muito particular. Entretanto, se não acreditarmos que alguém nos dará um empurrãozinho, parecerá o fim. Também acredito naquilo que virá sem que você faça o menor esforço, seja para o bem ou para o mal. Está escrito, traçado no seu destino, e ponto. É a sorte e o infortúnio de cada um, de cada homem. E não adianta reclamar porque nada se modificará.

A vida realmente não é fácil para quase todo mundo. Fico me perguntando se quem nasceu príncipe realmente mereceu? O que será necessário fazer nessa vida para que num amanhã todos tenham os mesmos privilégios? Se alguém souber, por favor me avise. Mas não vá se esquecer que para existir um rico que seja, serão necessários vários pobres. É esse o sistema de capital que escolhemos viver.

Desejei várias vezes na minha existência ser um outro ser que não um homem. Se eu pudesse escolher uma outra forma de vida, acho que seria feliz se fosse uma nuvem. Passaria o dia vagando de um lado para o outro, à deriva, e sem pressa. E, por fim, viraria a chuva que cai na cabeça do homem. Ou evaporaria sem que ninguém tivesse me notado.

Já que a vida de uma nuvem é muito breve, acho que ser uma planta também me faria feliz. O importante dessa filosofia é ficar sem fazer nada – apenas existir. Para ser uma planta você só dependeria da terra, da água da chuva, e do sol para a sobrevivência. Se em algum momento um desses elementos faltasse, restaria o fim. E isso nem é tão ruim.

Sempre achei que a luta pela subsistência é cruel. Talvez em outros sistemas de sociedade, como no socialismo, no comunismo, ou nos povos que só vivem da caça, seja mais fácil. Ou quem sabe a vida foi mais fácil em algum lugar do passado. Aqui vivemos para competir e o caminho da competitividade é difícil, é longo, é vertical. Eu juro que se soubesse disso tinha escolhido, de verdade, ser uma nuvem ou uma planta.

Por que será que a vida é muito mais colorida quando se tem dinheiro? Ô pergunta de resposta fácil. Quem contraria a célebre frase de que dinheiro não traz felicidade é porque nunca o experimentou. O correto seria dizer que o dinheiro compra a felicidade. Eu não vejo nenhum problema nisso. Recursos podem comprar de tudo que é bom e de tudo que é ruim. É só escolher e pagar a vista. Que maravilha!

E as contas do mês? Nunca vi pipocar tanta conta sobre a minha mesa. A manutenção da vida custa muito caro. Nunca fui de extravagâncias, tão pouco de grandes luxos. A propósito nunca tive um trabalho que me pagasse fortunas. Na minha vida a coisa sempre empatou. Trabalho pouco e ganho pouco. Um dia ainda viro bicheiro ou marajá.

Você já deve ter ouvido o seguinte conselho: trabalhe mais porque o trabalho enriquece e dignifica o homem. Pois é, sempre achei que é mais inteligente quem trabalha menos e ganha mais. A impressão que tenho é de que não me dei muito bem em nenhuma dessas indicações. Tô precisando mudar a minha filosofia de trabalho, ou quem sabe de vida.

A chuva sempre trouxe a bonança para o homem. Nem vou citar a destruição que o excesso de chuva causa porque essa culpa é do homem, do lixo do homem. É culpa do desmatamento feito pelo homem, das construções nas encostas, da imprudência e da sua burrice. Sempre o homem.

Mas, depois das cheias pelas chuvas da estação o solo fica enriquecido e as sementes germinam. Depois das chuvas o ar fica despoluído e fresco, e nossos olhos enxergam um belo horizonte distante. Depois da chuva vem o arco-íris e a paz.

Ah… deixei as contas para pagar depois. Afinal de contas, durante a chuva o meu coração se enche de alegrias e se renova de esperanças.

Zé.

That’s all Folk’s!

Imagem: Getty Images

6 Comments

  • Jacqueline Gimenez wrote:

    Menino lindo… deleite é pouco!
    Você vem, invade minha vida e a torna pública!!! Falava sobre o tema com uma amiga que veio jantar conosco para comemorar meu novo emprego (mais um emprego). Acabou o gás, acabou o café, a gasolina e o dinheiro… tudo hoje. Mas como manter uma vida de poucos quereres em um capitalismo tão voraz que nos rouba até os segundos do dia? Você diz com perfeita maestria: mantendo sonhos e certezas, buscando e sendo maior que as contas… e olha não é fácil!!!
    Te adoro em cada frase. Evoé meu grande amigo.

  • Valdi Neto wrote:

    Acabei de visitar o “Blog do Zé”. Muito triiii teus textos! Bjão!

  • Contabilizar a vida já dá trabalho. O que dizer das finanças? Hoje precisamos avaliar bem cada investimento. No amor é assim, não seria diferente nas finanças. hehehe. Acredito muito no poder das nossas decisões. É preciso traçar objetivos mesmo que a longo prazo. Mas, é claro que nossas vaidades entram também nesse percurso e nelas há, por vezes, boa parte dos investimentos. Olha só, reluto com as famosas “entradas” do cabelo que herdei de meu pai. Já manipulei tantos medicamentos e gastei tanto dinheiro para “frear” meu quadro genético, que me perguntei certo dia: isso ainda continua sendo uma vaidade? Claro que essa é a menor parte de um orçamento mensal… Contudo, de pequenas partes, chegamos ao final de cada mês. Hoje procuro reciclar aquilo que é necessário e manter! Já o superficial, tentoooo deixar de lado. E, quem sabe, num belo por do sol seremos todos contemplados com a vida de príncipe (rsrs) pois, não sabemos o dia de amanhã. E, amigão, continue confiando na vida. Esta sim é nosso maior patrimônio. Um forte abraço, vamos firme e com fé. Até mais um texto do blog.

  • Junior wrote:

    Vida real… preciso desabafar. Sou uma pessoa que odeia contas, na verdade eu odeio não ter dinheiro para pagá-las. Mais o que mais tem acontecido é a falta dele… do dinheiro. Outro dia alguém me falou… ”Dá tempo ao tempo”, mas eu não tenho tempo, eu não quero tempo. Sei que tudo na vida tem um preço e uma consequência, por isso me sinto impotente perante a realidade. Às vezes não temos dinheiro, não temos amigos, não temos vida… eu não tenho mais tempo, não tenho mais tolerância, não tenho mais dinheiro… só me resta a esperança… esperança de ganhar na Mega Sena.
    Mundo real. Bjs guri.

  • Viviane wrote:

    Trabalho enriquece e dignifica o homem, mas na prática não é bem assim. Dignificar sim, enriquecer não! Ganhar a vida com facilidade é para poucos… E, mesmo estes, sendo realizados profissionalmente, na maioria da vezes, não são completos. Posso não ter o melhor salário, mas tenho amigos e uma família maravilhosa… Grana traz felicidade sim, mas, se eu tivesse que escolher, ainda assim escolheria a minha vida!

  • Teresa F. wrote:

    A vida de cada um de nós é a soma daquilo que experimentamos. Se somos mais sábios, logo mais valorosos nos tornamos. Essa sabedoria pode vir da nossa capacidade de assimilação, seja pela vivência ou pelo treino intelectual. Entretanto, vamos parecer para o outro aquilo que enxergamos em nós. Mas a nossa verdade está exatamente na soma do esforço que nos faz melhor. Teresa.