MULHERES QUE ME CANTAM

Passei os últimos dias confinado no meu apartamento, solitário em mim. Sempre gostei do silêncio da casa, da calmaria, do frio, dos dias nublados. Nunca aceitei que a minha alma se refletisse no peso de uma nuvem cheia de água, mas esses dias me encantam. O bom de tudo isso é que nunca passei, um dia sequer, sozinho. E sou um cara bem feliz.

Contei 98 CDs empilhados na minha estante. Eu sei que a minha CDteca é pequena, mas cada um deles tem grande importância na minha vida. Alguns eu ganhei de presente, outros comprei, e apenas dois títulos raros são cópias, todo o restante é original.

Acho que a música é como cenário, é como perfume. Ela está ali, como trilha sonora para a vida que segue no plano da frente, aguçando os sentidos. Se estivermos agitados, um som dançante provavelmente tocará aos ouvidos. Se estivermos calados, a melodia e o instrumental serão diferentes, as letras serão outras. Para uns, cheiros trazem à lembrança.

Sempre curti MPB e de alguns cantores sou fã incondicional. Nunca tive a obra completa de nenhum deles, de alguns fui ao show e outros simplesmente falam ao meu coração. Aliás, uma música é feita para tocar a alma de milhares de pessoas, como duplicata afetiva. Algumas realmente parecem ter sido compostas e cifradas no céu.

Tenho o hábito de ouvir rádio quando tô no carro e com o tempo descobri alguns artistas que antes eram desconhecidos para mim. Daí, fico dias aguardando para ouvir novamente aquela canção, pra jogar na rede o pedacinho da letra que consegui memorizar. Assim descobri Bruna CaramMarcela Biasi, e Jay Vaquer, para citar alguns. Se estão na linha de produção ou fora de linha, não importa. Se eu gostar da obra, posso buscá-la no antiquário ou no museu.

Quase ninguém conhece o trabalho do Jay. Os únicos quatro CDs lançados estão comigo – deve ser por isso. Só agora me dei conta de que tenho a obra completa de alguém. O som do cara é uma revolta contra o contexto e as diferenças sociais em que vivemos. Uma garotada meio emo, meio esquisita, também curte. Bem… deve ser o meu outro “eu” que se identificou. Fui a todos os shows do Rio, do Teatro Odisseia ao Canecão.

Em casa quase toda a minha coleção está digitalizada no HD, além dela eu também curto ouvir rádios internacionais pela rede. Se eu passar o dia em casa é com elas que vou estar. Bem acompanhado, não?

Não sei se é coisa de gaúcho, mas fui um apaixonado pela Calcanhotto. Escrevi no pretérito passado porque ela sumiu. Aliás, sumiram com quase todo o elenco da EMI e da Sony. Faz tempo que Adriana não grava nada e Partimpim eu não quis comprar. Se aparecesse algo parecido com Perfil ou Público, lá estaria eu, na porta da Fnac, para ser primeiro comprador do pré-lançamento. Não há nada igual ao CD embrulhado naquele plástico que ninguém consegue abrir só com os dedos. E dentro vem a capinha com o release, as fotos e alguma historinha no capricho. É muito prazeroso chegar em casa e curtir a obra que o cara concebeu.

Além do Jay, preciso dizer da minha sedução pela música do Nando Reis e por tudo que a Cássia cantou. Quando a ouço tenho vontade de ficar descalços, meio bicho-grilo. Acho que tudo o que ele compôs pra ela foi por engano, ele compunha para mim.

Assisti aos últimos shows do Ney, mas para falar dele eu teria que entrar em outra atmosfera. O Ney é outra coisa, é singular, é outro papo. O meu universo pop musical brasileiro não vai muito além das mulheres que me encantam. Nem me propus citar os cults daqui porque sinceramente nem curto tanto. Tô falando de música para o “dia-a-dia”, pro meu cotidiano, para companhia.

Parágrafo a parte, preciso confessar que eu cedi aos encantos de Ana Carolina um pouco mais tarde. Acho que do Multishow ao 9 ela conseguiu com que eu me entregasse. O show é realmente bárbaro. Ela é realmente ótima e um tesão.

Para fechar a minha lista, anota aí: Skank, Vanessa da Mata e, Maria Rita.

Para fechar o meu texto, encabeçando o topo da minha play list: Marisa. Nunca entendi como ela se casou com Pedro Bernardes, mas dizem que se separou. Se ela quiser, dou casa, comida, roupa lavada e um milhão por mês.

Inseri um link para a minha canção preferida no nome de cada cantor. Que bom que a gente não precisa mais virar o disco. Acionei o meu repeat.

Zé.

That’s all Folk’s!

Imagem: Getty Images.

5 Comments

  • Su Einsfeld wrote:

    Oi Zé! Blz?
    Você sabia que temos uma prima que também canta?
    Dá uma pesquisada em C. Einsfeld. Ela é do Rio também e se não me engano é produtora.
    Bjões Zé! Tudo de bom e até!

  • Viviane wrote:

    Muito engraçado isso, mas é exatamente assim. Algumas músicas parecem que são feitas pra gente, para alguns momentos, situações… Elas podem nos completar, nos alertar, fazer refletir, enfim. Quem não tem sua trilha para cada momento da vida? Através da música podemos lembrar de uma pessoa, de uma festa, de um amor, um lugar… Acredito sim que muitas delas são compostas no céu e vem para terra como inspiração aos músicos, certamente um presente pra ‘lavarmos’ a alma.
    Grande abraço meu querido.

  • Lembrei de vocês me fazendo ouvir Ana Carolina no carro… blerg! ahauhahauahauhauah

    Descobri uma banda argentina ótima!! Chama-se Seru Girán. Há muito tempo que eu não ganho um cd. Acho que o último foi Segundo da Maria Rita… Mas não me importo em baixar, embora saiba que não é politicamente correto…

    Ficar em casa trancado é como eu tenho estado nos últimos anos. Estudando, estudando, estudando… E pretendo que seja assim por um bom tempo… Doutorado vem aí!!! Se Deus quiser!

    Como está sua dramaturgia? Aposto em ti, heim!

    Beijos, querido…

    PS.: frio já chegou aqui. blusão de lã rox!

  • Jacqueline wrote:

    Lindas e delicadas mulheres… me encantam com seus cantares também. (Quando escrever as mulheres que te encantam quero uma linha, uma fuga literaria, para mim…)

  • Teresa wrote:

    Eu gosto de gostar dessas mulheres e desses homens… assim, sem gênero. O meu gostar é muito parecido com o teu. E me completa. Pela seleção te achei o último dos românticos, igualzinho a mim.