Você assistiu ao filme A Marcha dos Pinguins de Luc Jacquet? Eu tive o prazer de comprá-lo para o meu acervo pessoal. Só pude vê-lo agora, mas seu lançamento foi em 2005 e em 2006 recebeu o Oscar de melhor documentário. Para mim, existem obras que valem a propriedade e devem estar sempre ali, na estante, catalogadas e eternizadas. Minha coleção ainda é pequena, mas desde já prefiro os filmes de arte e esse é um deles.
Lembro-me que na minha infância, quando precisávamos ir ao banheiro no meio da noite, para não ter que usar o pinico, meu pai tinha uma estratégia. Preciso contar que na zona rural daquela época, não existia saneamento básico e muito menos banheiros dentro das casas.
Eu e meu irmão costumávamos subir, de pés descalços, em cima dos pés calçados do meu pai. Ele pegava na mão da gente e nos conduzia à grama molhada, do sereno do inverno, exatamente como fazem os pinguins para proteger seus ovos e seus filhotes. Eles os carregam nos pés. E olha que meu pai não tinha a menor ideia de que esse instinto não é da nossa espécie e sim das simpáticas aves da Antártica.
As inacreditáveis marchas que os pinguins enfrentam são interessantíssimas. É o ciclo da perpetuidade. Mas, sabe o que mais chamou à minha atenção? Durante cada ciclo eles são extremamente fiéis um ao outro, mantendo uma relação de “amor”, devoção, e confiança para com o parceiro.
Num determinado dia do ano, num exato momento, vários grupos, que estavam dispersos pelo continente gelado, se encontram. Naquele instante, após o sinal de partida, todos enfileirados, quase equidistantes, procuram o gelo firme do deserto congelado que os protegerá do forte inverno. O curso dessa trajetória os leva ao acasalamento e à procriação, num doce e gelado lar.
Há alguns anos um professor meu citou um livro cujo nome me esqueci, mas tratava sobre a organização de uma sociedade de abelhas. Numa pesquisa rápida encontrei uma informação que diz que a grande maioria delas vive para o trabalho, são as chamadas abelhas operárias. Alguns machos, os zangões, têm a função de fecundar a rainha que põe em média cinco mil ovos ao longo de cinco anos de vida. Já as operárias, coitadas, só vivem 45 dias.
Li também sobre a sociedade das formigas. Dizem que são regidas por severa hierarquia, podendo ser chamadas de castas. Parte dos trabalhos é distribuída por tamanho e por idade. A grande maioria vive para o trabalho, que garante o alimento para os dias mais difíceis. Elas também têm funções na construção e manutenção dos formigueiros, que, geralmente, são obras de considerável engenharia. Essas sociedades são conhecidas por terem níveis avançados de organização – a eusocialidade.
Na minha família, por anos, trabalhamos de maneira organizada para garantirmos o nosso alimento, a seguridade social, a manutenção da casa, os serviços, as roupas, educação e lazer. Embora eu tenha me desligado lembro-me que tínhamos as tarefas distribuídas de forma hierárquica. Cada um era responsável por determinada função, para que o produto final da nossa pequena empresa familiar chegasse ao destino.
No curioso documentário de Bonne Pioche. Os pinguins, quando chegam ao curso final da sua marcha, após se passarem três luas e muito frio, manterão o ovo encaixado e bastante aquecido sobre os pés da pinguim mãe. Haverá mais algumas marchas ainda; haverá o revezamento para o aquecimento do ovo e muito, mas muito frio. No entanto, se a qualquer momento um deles falhar, encerra-se ali o ciclo desgastante da vida.
As donzelas mais elegantes, que tiverem mais sorte e atributos, ficarão enamoradas até que o filhote, numa fase mais adulta, vá embora para se alimentar e conhecer o mar. E, se na próxima temporada tiverem muita sorte, o feliz casalzinho pode voltar a copular e se enamorar de novo. Nada é impossível nesse mundo de Deus. Mas, se quando a próxima marcha for iniciada, poucos machos estiverem disponíveis, não haverá problema se o parceiro for um novo pinguim. O importante é que dentro de cada ciclo, os casais se reconheçam, sejam extremamente fiéis, e o concluam do início ao fim.
Lá em casa as coisas não mudaram muito. Hoje eu tô longe do ninho, por escolha, e sei que o ciclo de trabalho continua. Sei como é a luta diária para que consigam manter o pão sobre a mesa e todos os ovos aquecidos. Acho que não somos tão rígidos como as abelhas ou as formigas. Precisamos estar organizados socialmente para convivermos nessa organização desorganizada que inventamos. Para mim, estamos mais parecidos com os pinguins. Marchamos inconscientemente pela busca de nossos parceiros para que com eles possamos trocar amor, devoção, confiança. Para perpetuarmos e sermos felizes.
Zé.
That’s all Folks!
Imagem: adorocinema.com

Quem sabe na marcha dos seres humanos o ciclo se acabe somente na morte de um deles, pq pensar na morte do amor? Temos mesmo é que acreditar mais, pois sem crédito a vida também não vale a pena. Grande busca pra ti e pra nós!
Querido, emocionante sua forma de lembrar do que viveu em família, a beleza com que descreve fatos, que muitas vezes esqueçemos num cantinho da nossa memória, nos remete à uma doce lembrança de quem somos e de quem fomos. Seus pais, com certeza, se emocionam ao ler tamanho carinho transformado em palavras. E quanto a morte, ela é apenas uma passgem, um portal que nos separa do antes e depois, e mais importante é que o aprendizado desta forma tão simples de vida, será com certeza lembrada em outras bem mais elevadas. Bjos.
Mas uma vez você me fez encher os olhos de lágrimas ao lembar desses detalhes tão gostosos em que meus pais fizeram comigo e eu os fiz com os meus filhos, um dia pinguins… noutro super herói… cada dia um personagem diferente, uma mania que aprendemos e uns tocs a mais. A minha mas nova mania? Ler seu blog, fico irada quando não consigo, ou qdo me enterrompem pra falar qualquer besteirinha. Bom saiba que mesmo de longe ficarei te observando sabe aquele frase “longe corpo mas perto do coração” assim espero ficar com vc, com Ellis… e é isso aí vamos todos os dias voar a procura de novas flores como um beija-flor à procura de mel, nas mas belas flores dos jardins, de flor em flor. Um bjo forte. Sucesso pra ti, pra nós.
Que interessante saber um pouco mais da sua infância! Gostei muito! E esse tema do documentário realmente dá muito pano pra manga, não é mesmo? Tanto o sistema de ciclos, quanto a fidelidade entre os parceiros, quanto o zelo pela nova geração, quanto o ato de deixar o novo filhote livre pra conhecer o mundo por si só (sem a proteção constante dos pais)… mas gostei muito da sua maneira sintética de abrodar um pouco de alguns assuntos. Muito bem feito, por sinal! Quero ver o documentário! Ainda não vi mesmo! Forte abraço, queridão!
Que bela analogia você fez. É na infância que formamos boa parte da nossa personalidade e o que percebo é que você teve sorte por ter nascido naquela família. Mas o melhor é lembrarmos humildemente das nossas origens e conquistas. Beijos.
Acredito piamente que o homem me seria um complemento. Acredito no homem pinguim, assim, como acredito na família. Aliás, não me aprofundarei porque teria aqui um estatuto, não um doce comentário, pela tamanha beleza que você esbanja – essa da Alma.
Vá menino, encontra os teus, para abraçar forte e ser recebido, por aqueles que merecem ser reverenciados, por terem cuidado tão bem da semente, que floresceu tão Ser. Gente, assim, como eu, distante, recebe, e usufrui por dádiva de Deus. Vai, que daqui, o seu desejo, do bom papo e do vinho, se faz melhor com o seu necessário encontro. Não por ser eu paciente, mas, por ter a certeza que te nutrirá de mais encanto. E, por sua Alma ter beleza, não deixará de repartir a sua essência com todos nós que recebemos essa oportunidade de seus encantos, dos seus textos.
Abra as asas Zé e, de lá, lembre-se que de cá, se saberá esperar – pelo ovo! Beijos para sua maínha, porque é mulher de verdade! Beijos para você, para todos que te querem forte e um “brigadão” à Deus pela tua existência!