A ESCOLHA

GÊNERO | Drama Realista Psicológico

AUTOR | Joseph Meyer

PERSONAGENS
Teresa | Otávio | Suzy | Tom

ARGUMENTO | A cidade carioca é o pano de fundo de uma trama brilhante que instiga o espectador a fazer as suas escolhas. Ele não tem o poder para modificar o destino das nossas personagens, mas deseja o tempo todo que elas sigam os melhores caminhos. Nem sempre uma boa escolha beneficia a todos. Cabe ao espectador julgar o que é o céu ou o inferno de cada um.

Teresa nos mostra que, no cotidiano, vivemos muitos encontros e desencontros; que, a todo instante, estamos reescrevendo nossas próprias histórias. Aprendemos que as ações de hoje resultam nos movimentos de amanhã. Nossos atos são soberanos sobre o nosso passado. São decisivos para o nosso futuro. É impossível apagá-los, tão pouco melhorá-los. Somos exatamente aquilo que vivemos, mas aparentamos aquilo que queremos ser.

Prepare-se para viver uma bela história em que se busca o amor. Prepare-se para entender que tudo o que vivemos hoje, no universo particular de cada um, é exatamente igual ao ponto de partida. Prepare-se para reconhecer um pouco de si. Dentro de você certamente habita um pouco de Teresa, algo de Otávio, talvez muito de Suzy, talvez o todo de Tom. E, no final de tudo, você vai perceber que é você quem faz A ESCOLHA.

AMBIENTAÇÃO | A modernidade tornou a vida mais tecnológica. A agenda de antes foi substituída pelo notebook, pelo blackberry. O celular mantém as pessoas em contato a qualquer momento. O homem precisou inventar outras desculpas pra justificar os desencontros. A internet encurtou distâncias geográficas, disponibilizou com instantaneidade a informação, aproximou algumas pessoas e esfriou as relações.

Contudo, é no chat que Tom vai conhecer o seu grande amor. Suzy levará todas as suas frustrações para o divã. Teresa vê na casa e no consultório o sentido da vida e da família. Já Otávio é o sujeito livre, é das paixões, da bebida, do jogo de pôquer e do mundo.

Ao fundo do palco uma grande tela projeta o tempo presente que vive a trama. Lá está impresso o tempo (o amanhecer, a manhã, o meio-dia, a tarde, o alvorecer, a noite, a chuva, o sol, o movimento da rua, os transeuntes, o silêncio, a solidão, os pássaros, a música e também o homem).

Dois sofás e uma mesinha de centro ora compõem a casa, ora subentende-se o consultório de Teresa. As telas de Tom dão a ideia de Ateliê. Ao fundo, há uma escrivaninha e um computador para o chat. Há uma mesa de jantar com quatro lugares, para os encontros da família. O bar está numa lateral do palco. Há um balcão e, à frente, uma mesinha com duas cadeiras. Ora subentende-se o bar da casa, ora o Café Clube, ora o Café Literário. Sugere-se que os diálogos do chat sejam projetados no telão ao fundo, ao mesmo tempo em que são teclados pelas personagens.

PERFIL DAS PERSONAGENS

TERESA | Teresa Fernandes Araújo é psicóloga e exerce seu ofício desde a conclusão do curso. Hoje, aos 46 anos, Teresa não tem a menor dúvida de que fez à melhor escolha – apontar caminhos para que o outro decida. Teresa é muito dedicada aos seus pacientes e à sua família. Suas falas são seguras. Ela é convicta das suas ideias e extremamente paciente com o outro. Vive em dois universos dos quais não abre mão. O trabalho fez de Teresa uma mulher forte. A doutora se vê entre a cruz e a espada com a questão de uma de suas pacientes. Ela quebra alguns valores éticos para salvar a própria família, no entanto, mais adiante, vai perceber que os ciclos a levaram exatamente ao ponto de partida. Teresa guia a casa com pulso firme. São poucas as coisas que fogem do seu controle, mas Otávio, seu marido, é uma delas.

OTÁVIO | Otávio Augusto de Albuquerque é um sujeito extremamente experiente com as mulheres. Ele também atende por Augusto, seu segundo nome. Bastante sedutor consegue conduzir seu casamento e ao mesmo tempo sua amante. Aos 58 anos seu grande desejo é que seu filho único, o Tom, o encha de netos. Otávio é advogado e tem uma forma muito particular de fechar seus contratos. Ele usa a sua amante como isca para descobrir informações confidenciais e privilegiadas que servem como facilitadoras no fechamento dos contratos. Sua relação com Tom não é das melhores porque o filho decidiu não seguir a carreira do pai. Otávio é quase sócio do Café Clube, tendo certa influência na administração do bar. Otávio já levou muitos clientes pra consumirem por lá. É lá que ele fecha boa parte dos seus contratos, curte a jogatina do pôquer, e mantém seus encontros com Suzy, a amante.

SUZY | Suzy de Holanda é extremamente atraente. Aos 38 anos está cursando o último ano de Economia. É inteligente e a aparência não revela sua idade. Sofre a ausência da família que vive numa cidade do interior do Rio. Suzy não conheceu o pai e desde muito jovem batalhou pela vida. É segura quando trata com garotos mais jovens, mas completamente insegura na presença de Otávio. Suzy não vê problemas em contribuir de forma ilícita para o trabalho de Augusto. Mantém um carinho especial por ele, mas acha que está na hora de viver uma nova relação. Suzy levou todos os seus conflitos para a terapia e de fato as sessões fizeram dela uma pessoa melhor. O seu coração está derretido desde que conheceu Tom, no chat.

TOM | Thomas Fernandes de Albuquerque é um cara de bem com a vida. Aos 26 anos está cursando Pós Graduação em Comunicação e Imagem. Tom teve uma vida fácil por ser um filho de pais da classe media alta. Isso não fez de Tom um sujeito alienado da realidade social em que vive. Tom é um artista. Pinta suas obras conforme manda o seu coração. Elas são o exato retrato daquilo que está vivendo. Pressionado pelo pai para que se encontre na vida e pra que consiga algum dinheiro com o trabalho, ele capricha pra se lançar como pintor. Sua primeira Vernissage acontecerá em breve.

A PEÇA

CENA 1 | CONSULTÓRIO | SESSÃO DE ANÁLISE EM CURSO | 16:45

Teresa – Suzy de Holanda, eu lamento pelas suas frustrações, mas já discutimos tantas vezes sobre esse assunto. Você percebe o quanto as suas frustrações se repetem ou o quanto você permite que elas continuem fazendo parte dos seus dias, da sua vida?

Suzy – Percebo sim, mas o fato de estar com Augusto mexe comigo. Sinto-me desequilibrada emocionalmente, não tenho certeza se quero dar continuidade à nossa relação, mas, por outro lado, me acomodei no conforto das coisas que vivemos juntos. Daquilo que ele significa pra mim. Augusto é como um pai. É alguém que chega de mansinho e com toda a paciência me ensina a lidar com os meus problemas.

Celular de Teresa toca. Teresa sorri e atende.

Teresa – Sim filho. Estou no meio de numa consulta. Dê uma olhada na primeira gaveta da escrivaninha, teu pai costuma deixar algum dinheiro ali. Filho, estou com paciente agora, podemos falar quando eu chegar em casa? Você almoçou? Ok. Beijos.

Teresa – Desculpa Suzy. (desculpando-se pelo telefonema)

Teresa – Você se importaria de perder o que você chama de conforto? E isso não inclui apenas conforto material.

Suzy – Acho que me importaria sim.

Teresa – A maioria dos meus pacientes, em casos parecidos com o seu, se arrependeu depois de um rompimento.

Suzy – Eu imagino, mas ocupo uma posição desconfortável. Tô quase concluindo a faculdade. Preciso encontrar um bom emprego. Gosto do que faço, mas o fato de trabalhar para o Augusto me deixa ainda mais amarrada a ele. Nunca julguei o meu trabalho como um trabalho ruim, muito pelo contrário, nunca ganhei dinheiro com tanta facilidade.

Teresa – Isso parece bom. Você não faz parte da máfia, não é traficante. Pelo o que entendo você apenas facilita o trabalho de Augusto. Não há problema nisso.

Suzy – Pois é. Não compreendo muito bem a importância do que faço, mas é fundamental para os contratos de Augusto. É daí que vem o meu dinheiro.

Teresa – Viva uma coisa de cada vez, Suzy. É importante o encontro profissional, mas nem sempre a vida se apresenta como desejamos. Batalhe, mas tenha calma também.

Suzy – Depois penso que tô me formando numa área que nem tenho ideia se vou seguir ou não. Não sei se a profissão que escolhi é realmente o que desejo fazer. Tô confusa, Teresa. Definitivamente, não tô feliz.

Teresa – Calma Suzy. Já chegamos até aqui e uma decisão precipitada pode modificar a sua vida por completo. Nesse momento, Augusto é importante para você. A vida é feita de pequenas escolhas e não se pode ter tudo ao mesmo tempo.

Suzy – Eu acho que escolhi bem. Geralmente tomo decisões pensadas. Amadureço as minhas ideias aqui na análise. Não é à toa que vim parar aqui, mas também sei que não vou ganhar o tempo todo.

Teresa – Quando você diz “ganhar” você se coloca num jogo. Saiba que também não ganhamos o jogo o tempo todo.

Suzy – Eu sei.

Teresa – Mas, se a sua escolha for desistir do Augusto, você precisa estar preparada para as coisas novas que virão. Talvez tenhamos que trabalhar em você o arrependimento. Geralmente nossas culpas nos deixam presos ao passado. Só falo isso no sentido de alertá-la.

Suzy – Tudo bem.

Teresa – Nos vemos na próxima semana?

Teresa conduz Suzy até a porta. Suzy e Teresa se beijam.

Suzy – Se esse homem soubesse o quanto eu preciso dele, tenho certeza de que ele abandonaria a casa, o cachorro, o gato, a mulher e o papagaio.

Teresa apenas sorri.

Teresa – Eduardo. (chamando o próximo paciente)

…continua.

That´s all folks!

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