Ela abriu de mansinho a porta do quarto e olhou pela última vez para o rapaz deitado na cama. Era cedo demais para acordá-lo, para dizer que estava indo embora. Como de costume, por levantar várias vezes na madrugada, andava em silêncio pela casa para não despertá-lo com algum barulho. Antes de sair deixava apenas um bilhete desejando um bom dia. Mas, naquele dia ela estava decidida a partir para sempre.
Os dias passam acelerados e essa velocidade acaba com o tempo da gente. Cada vez que me olho no espelho a face parece mais cansada, as pálpebras estão mais caídas, e percebo uma ruguinha ou outra que antes eu não via. E assim esse tempo se vai, escoando por entre os dedos, passando, passando e passando.
Do fundo do meu coração eu queria que as coisas da vida fossem diferentes. Ando meio calado nos últimos dias. No silêncio consigo perceber situações que quando agitado eu não consigo. Quase não dormi na noite passada pensando na situação de um amigo, em como resolver um problema que não era meu. Quando penso na fragilidade da vida, tantas coisas ficam sem sentido para mim. Quando observo que as pessoas simplesmente passam pelos meus dias me dá uma angústia no peito. Um dia aqueles que você ama se vão de você, noutro eles se vão da vida. Tenho olhado na carinha das pessoas e pensado em como será o dia em que elas se forem.
E o tempo passou e nada mais faz o mesmo sentido. Não adianta querer voltar porque o que estava lá já não é mais como era antes. Apenas nós somos justamente os mesmos, nem piores e nem melhores, e as coisas vão ocupando o seu devido lugar, mas no passado. E a vida se encarrega de ajustar as coisas e acaba encontrando algum destino para aquilo que se perdeu.